Breve história de Cacia

1 – Da Idade do Bronze às migrações bárbaras
Grande parte do território que hoje constitui a freguesia de Cacia situava-se na extremidade oriental de uma pequena península, que era banhada pelo Oceano, a norte e a poente, e por «um vasto estuário no qual desaguavam os rios Vouga, Águeda e Cértima» (AMARAL, 1968: 36), a nascente.
Não havendo certezas sobre quem foram os primeiros habitantes da região, João Gaspar (1986: 63) admite que poderão ter sido povos «provenientes de uma tribo de povos vetões, conhecidos por transcodanos, vindos das Terras do Além-Coa» (ibid), que depois do desaparecimento dos grandes lagos do planalto ibérico, se deslocaram para ocidente, aqui chegando por volta de 3000 a.C., onde continuaram a sua vida lacustre e a faina de pescadores (ibid).
Por aqui também terão passado outros povos, embora com objetivos comerciais. Refiram-se os fenícios, no século X a.C. (ibid), os gregos, por volta do século VII a.C. (ibid) e, mais tarde, os cartagineses, recordando João Augusto Marques Gomes que a frota de Amílcar Barca chegou mesmo a estar abrigada na foz do Vouga (1875: 113).
Os últimos povoadores da região, antes da chegada dos romanos, terão sido os túrdulos, oriundos da Bética. Estes túrdulos, juntamente com os célticos, que viviam junto ao Guadiana, empreenderam, segundo Armando Silva (1995: 513), na sequência da batalha de Alalia, ocorrida em 535 a.C., uma expedição até ao litoral noroeste da Península, expedição esta evocada por Estrabão. Segundo este historiador e geógrafo grego, à passagem do rio Lima, os dois grupos desentenderam-se, tendo os célticos seguido para norte e os túrdulos ocupado a região a sul do Douro (ibid). Estudos recentes apontam para que a migração celto-túrdula tenha ocorrido, muito mais tarde, provavelmente, em 141 ou 140 a.C., e que tenha sido causada pelo endurecimento das campanhas militares movidas pelos romanos, no sul da Península Ibérica (OLIVARES PEDREÑO, 2013: 2).

Fig1Localização de alguns
Figura 1. Localização de alguns castros litorais na hipotética linha costeira, no primeiro milénio a.C., de acordo com SILVA (1999: 18)

Uma das razões para a fixação dos povos antigos na pequena península de Cacia (chamemos-lhe assim) seria a existência de marinhas de sal. Ainda hoje, existem vários microtopónimos que contém a palavra Marinha (RODRIGUES & BARREIRA, 1994: 167-194), que confirmam o exercício da extração de sal no passado.
Entretanto, a ocupação romana terá dado novo impulso ao povoado marítimo de Cacia que, além de continuar a produzir e a negociar sal, serviria, segundo Vasco Mantas (1990: 154), de porto de embarque dos minérios de cobre e ferro, provenientes das explorações de minas situadas a montante, pertencentes aos atuais concelhos de Albergaria-a-Velha e Sever do Vouga.
Também Alberto Souto, depois de visitar as ruínas da Torre, situadas no lugar do Cabeço de Cacia, em 1929, garante ter aí existido uma povoação «que deve ter desempenhado um papel importante na vida marítima e fluvial da foz e margens do Vouga» (SOUTO, 1930: 11).
Refira-se que o fato da Cacia antiga não beneficiar de grandes defesas naturais – o lugar do Cabeço, onde se situava, era pouco elevado relativamente ao nível do mar – não impede que aqui tivesse existido um aglomerado urbano de relativa importância. É certo que não há, hoje, grandes vestígios físicos da existência de tal povoado, mas também não podemos ignorar que, durante séculos, a população vizinha foi retirando do local a pedra das construções primitivas, que reutilizava na construção de habitações e nos mais variados fins, culminando tal saque com a exploração comercial do local, sob a forma de uma “pedreira”, durante a primeira metade do século XX. Segundo testemunhas da época, além de saibro e cascalho, foram retiradas milhares de toneladas de pedra granítica e calcária (geologicamente estranhas ao local), supostamente provenientes de habitações e muralhas, com destino a um sem número de obras públicas. Felizmente, algumas das pedras retiradas do oppidum, por particulares, antes da abertura da “pedreira”, escaparam à destruição e/ou sumiço. Ainda hoje se encontram algumas a servir de suporte ao vigamento do soalho de casas do século XIX, outras em muros, nas paredes da igreja de S. Julião e, até, nas muralhas de proteção aos campos marginais do Vouga.
A torre que se erguia nas imediações da atual igreja de S. Julião indicia preocupações de ordem militar ou comercial, confirmando a posição estratégica de Cacia na região.

Fig2Bloco de calcário
Figura 2. Bloco de calcário do oppidum de Cacia, reutilizado, no início do século XX, na construção de uma barreira na margem do Vouga, no lugar do Mossaínho. Exumado das águas em 2007. Foto: Gustavo Ramos.

A primitiva povoação de Cacia terá sido abandonada, provavelmente, após ter sido destruída pelos povos bárbaros que chegaram à Península Ibérica no século V. Os sinais de erosão verificados, quase sempre numa face nos blocos calcários exumados das paredes da igreja matriz, em 1994, revelam que os edifícios primitivos foram destruídos e que os blocos tiveram uma exposição prolongada aos elementos.
Os sobreviventes deixaram o povoado, tendo-se, alguns, refugiado nas matas da região. A subida do nível do mar poderá ter igualmente influenciado o abandono definitivo da povoação, já que as marinhas de sal mais altas terão sido, por essa altura, completamente inundadas pelas águas do estuário, pondo fim, no local, a essa atividade milenar, por volta de 500 d.C., altura em que o nível do mar estaria a cerca de 1,5 acima do atual (gráfico 1).

Grafico1
Gráfico 1. A evolução do nível do mar, de 1000 a. C. a 2000. O nível 0 corresponde ao actual (Fonte: BLOCH, 1964: 11)

Recordemos que a Europa, depois de um período de prosperidade, associado ao aquecimento global, que se verificou a partir de 5000 a.C. (PLIMER, 2003: 11), passa, a partir de 500 d.C., a ter um clima mais frio e húmido, abrindo o caminho a pragas, enfraquecendo a agricultura e, consequentemente, reduzindo a população (SINGER, 1998: 3).
Será já desse período (cerca de 500 d.C.) a estrutura de pedra associada a uma oficina de produção/reciclagem de vidro (SARRAZOLA & SILVA, 2006: 75-76), descoberta pelo arqueólogo Alexandre Sarrazola, no lugar da Marinha Baixa.

Fig3Duas peças de cerâmica
Figura 3. Duas peças de cerâmica encontradas no sítio arqueológico da Marinha Baixa por Alexandre Sarrazola. Foto: Gustavo Ramos

Fontes:
AMARAL, Coronel Diamantino Antunes, 1968, «A Laguna: Vida, Morte e Ressureição de Aveiro», in Aveiro e o seu Distrito, nº 6, Aveiro: ??, pp. 34-36.
GASPAR, João Gonçalves, 1986, «Formação da Ria e Povoamento da Região de Aveiro», in Aveiro e o seu Distrito, nº 36, Aveiro: Assembleia Distrital de Aveiro, pp. 55-68.
GOMES, João Augusto Marques, 1875, Memórias de Aveiro, Aveiro: Typ. Commercial.
MANTAS, Vasco Gil, 1990, «As cidades marítimas da Lusitânia», in Les Villes de Lusitanie romaine – Hiérarchies et territoires, Paris: CNRS, pp. 149-205.
OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, 2013, «La migración de los célticos y túrdulos de la Beturia hacia el noroeste de Hispania», in Cuadernos de Estudios Gallegos, LX Núm. 126 (enero-diciembre 2013), pp. 51-84.
PLIMER, Ian, 2003, «The Past is the Key to the Present Greenhouse and Icehouse over the Time», in IPA Review, Volume 55 • Number 1 • March 2003, pp. 9-12.
RODRIGUES, Manuel Ferreira, BARREIRA, Manuel, 1994, «Toponímia aveirense», in Estudos Aveirenses – Revista do ISCIA, nº 3/1994, pp. 167-194.
SARRAZOLA, Alexandre, SILVA, Inês Mendes, 2006, POTOR – Povoado da Torre (Cacia, Aveiro) – Relatório Final, Plano Nacional de Trabalhos Arqueológicos.
SILVA, António Manuel S. P., 1999, «Aspectos territoriais da ocupação castreja na Região do Entre Douro e Vouga», in Revista de Guimarães, Volume Especial I, pp. 403-429.
SILVA, Armando Coelho Ferreira da, 1995, «A evolução do habitat castrejo e o processo de proto-urbanização no noroeste de Portugal durante o I milénio a.C.», in Revista da Faculdade de Letras – História 12, Porto: Universidade do Porto, Faculdade de Letras, pp. 505-546.
SINGER, S. Fred, 1998, Mitigation of Climate Change: A Scientific Appraisal, Washington: Competitive Enterprise Institute.
SOUTO, Alberto, 1930, A Estação Arqueológica de Cacia, Aveiro: edição do autor.

2 – Do Condado Portucalense ao século XVIII

O Conde D. Henrique e sua mulher D. Teresa, quando da reconquista cristã, em documento de 25 de Agosto de 1106, doaram ao Mosteiro de Lorvão «medietatem de villa nostra nomine Cacia» (metade da nossa vila de nome Cacia).
O padroado da freguesia era da abadessa do referido Convento, a qual, por isso, apresentava os respetivos párocos à confirmação episcopal; todavia, a instituição de uma Comenda da Ordem de Cristo nas rendas desta igreja, no século XVI, deu origem a uma substancial diminuição nos réditos do Mosteiro. Sabemos, por exemplo, que em Março de 1590, o comendador António de Melo da Silva, como senhor de todas as terras e propriedades dessa Comenda, reivindicava as duas partes dos dízimos, e de muitos já se declarava em posse, por si e seus rendeiros e antepassados, de mais de dez, vinte, trinta, quarenta, cinquenta e cem anos a esta parte.
A igreja paroquial é dedicada ao mártir S. Julião ou Gião. Aquele templo, reconstruído nos meados do século passado , tem no seu recheio esculturas medievais de calcário, como a Virgem e o Menino, dos meados do século XV, sendo da mesma época as imagens dos Mártires S. Sebastião e Santa Catarina.
Em 1775, os dízimos paroquiais de Cacia, que apenas contava 458 fogos, rendiam anualmente 900.000 réis; mas o pároco não recebia tais dízimos, porque duas partes pertenciam à dita Comenda da Ordem de Cristo e a terceira parte ao Real Mosteiro de Lorvão. Contudo, a Comenda não só tinha a obrigação de reedificar a capela-mor e a sacristia, bem como o dever de as ornar e paramentar – dando por ano, para esse efeito, a importância de 10.000 réis; além disso, dava ao pároco a quantia de 260.000 réis e ao cura coadjutor amovível, que vivia a expensas do pároco, a soma de 10.000 réis.
Em 1776, além do pároco-vigário, Padre José dos Santos Pires, e do cura, Padre Manuel Duarte, residiam na freguesia os Padres Manuel Simões e Manuel Antunes e os Minoristas Manuel Rodrigues, Fernando Dias, Eusébio Rodrigues Teixeira e Manuel Rodrigues da Costa.

Fonte:
GASPAR, Padre João Gonçalves, 1978, extractos do artigo «Uma presença constante em Cacia», in Celulose Cacia – Publicação Comemorativa dos 25 Anos Celulose Cacia, Portucel: Cacia, pp. 19 a 20.

3 – Séculos XIX e XX

Não podemos falar da História de Cacia sem se mencionar o século XIX. Sobretudo a partir da segunda metade deste século, em resultado da melhoria económica e social de um número considerável de famílias, à custa do desenvolvimento da agricultura e da emigração, parte dos cacienses alteram os hábitos e, alguns, as ideias. Começam a erguer-se, por toda a freguesia, casas apalaçadas e grandes casas de lavoura. É nessa altura que surgem os primeiros cacienses com cursos superiores. Entre eles, poderei citar o Dr. Manuel Rodrigues Simões, conhecido por Dr. Vigairinho, que, embora miguelista, era amigo pessoal de José Estêvão; o Dr. João Carlos Silveira Temudo, homem de letras; o Dr. Manuel Nunes da Silva, conhecido por Conselheiro Nunes da Silva, que foi deputado, ainda na Monarquia, e Juiz do Supremo Tribunal de Justiça; o Padre Manuel Marques Rodrigues, que, na qualidade de Presidente da Junta da Paróquia, fez estalar uma polémica enorme, ao distribuir um grande número de propriedades, por alguns cacienses, para agrado de uns e desagrado de outros.
Com o nascimento do século XX, muitos jovens de Cacia e filhos de cacienses (sobretudo os residentes em Lisboa) aderem ao ideal republicano. Manuel Nunes Ferreira, que foi companheiro de Elias Garcia e de Trigueiros de Martel; o Dr. Manuel Dias Ferreira, também fundador da República; Manuel Barreiros de Macedo; Manuel Teixeira Ramalho; João Ferreira e o Dr. António Maria Marques da Costa, que foi deputado ao Congresso da República, em 1911, e também vereador e presidente da Câmara Municipal de Lisboa, são alguns dos nomes mais sonantes daquele período.

Em 1919, Cacia é palco da acção militar conhecida pela Traulitânia. Com efeito, entre 24 e 31 de Janeiro, o Vouga serve de linha divisória entre monárquicos, instalados do lado de Angeja, e republicanos, aquartelados em Cacia. No dia 27 desse mês, os monárquicos tentam passar a ponte de madeira, mas são repelidos pelos militares e voluntários civis fiéis à República, comandados pelo capitão Zeferino Camossa Ferraz de Abreu. A partir de 31, os republicanos avançam para o Norte, atacando vitoriosamente Estarreja, o último reduto monárquico na região, e, a 16 de Fevereiro, entram triunfalmente no Porto.

Fontes:
RAMOS, Porfírio, 1997, Breve Cronologia Caciense, Cacia: Centro Social Paroquial de Cacia, p. 37.
RAMOS, Porfírio, 1997, «Discurso de Lançamento do livro Breve Cronologia Caciense» (adaptação).

4 – A Industrialização

Cacia transformou-se (…) muito mais velozmente neste último quartel (do século XX). E para essa mudança, em múltiplos aspectos, contribuiu, sobretudo, a implantação de uma grande indústria – (…) a Companhia Portuguesa de Celulose, que, não tendo, porventura, acautelado até ao desejável os problemas ecológicos e consequentes prejuízos nas margens com os efluentes poluidores (…) constitui um marco de referência, abre uma era nova, social, economicamente, e no género de vida, na população de Cacia.
Terá um reverso e dará algum motivo de queixa de alguns, mas pelo vulto, pelas condições de trabalho em que se derramou, pelo nível de vida de uma grande parte da população, nitidamente melhorado, pelas repercussões de que a povoação foi a primeira a experimentar benefícios, representa a mola maior, de mais valia e maior influência na modificação, na actualização de hábitos e estilos, na prosperidade de Cacia.

Fonte:
CERQUEIRA, Eduardo, 1978, extractos do artigo «Uma fábrica modifica uma povoação milenária e restitui-lhe a função de atracção populacional», in Celulose Cacia – Publicação Comemorativa dos 25 Anos Celulose Cacia, Portucel: Cacia, pp. 21 a 26.

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